O triste massacre ocorrido esta semana na Alemanha, por um garoto de 17 anos inicou mais uma onde de “vamos culpar os videogames”, como em todas as ocorrências de violência sem sentido dos últimos tempos.
Hoje pela manhã, um professor de ciências da computação da USP deu uma longa entrevista à CBN, onde destilou todos os grandes cichês de responsabilidades sobre os videogames, principalmente os violentos. Este professor, que infelizmente não lembro o nome, não teve nenhuma má fé, a intenção era boa em proteger nossa juventude e tudo o mais, mas o problema é a mudança de foco dos problemas contemporâneos. Eu explico.
O primeiro grande clichê é aquele que diz que todos os autores de crimes violentos são jogadores ávidos de videogame. Mas ele se esquece que todos os adolescentes são jogadores ávidos de videogame. Olhe a sua volta, quantas pessoas entre 14 e 28 anos que você conhece que não jogam videogame? É exatamente esta faixa de idade que mais os jogam. “Mas eles jogam jogos violentos”. Os homens são mais atraídos por jogos violentos, os autores destes massacres são homens. É tudo estatística. Seria o mesmo que pedir a extinção dos sapatos pois todos os autores de crimes usam sapatos.
O segundo clichê é que os jogos violentos não podem passar nada de positivo. Podem sim! Mesmo os jogos mais violentos podem trazer mensagens positivas na sua essência. Bolter e Grusin (no livro Remediation, de 1999) demonstram que mesmo estes jogos pedem ao jogador que reestabeleça um certo status quo, pedem ao jogador que traga uma “ordem” pré-estabelecida. A aprente desordem na superfície “realista” do videogame esconde objetivos pragmáticos no seu esqueleto semiótico. Em sua essência é positivo.
Outro ponto a ser lembrado é que os esportes e as competições esportivas em geral são maneiras modernas de extravasarmos ímpetos de violência que são resquícios de uma época em que éramos caçadores. Os videogames também participam desse mecanismo como uma pequena válvula, isso é demonstrado por vários especialistas em comportamento e psicologia em vários livros e artigos.
Num certo momento, movido pela raiva contra esses criminosos, o professor da USP chegou a dizer que “os videogames foram desenvolvidos como ferramentas de dessensibilização para militares americanos”. Não foi assim, sou pesquisador da história dos videogames e qualquer uma das três datas aceitas para o nascimento do videogame não traz esse tipo de segunda intenção, é só procurar. Os videogames são usados hoje como ferramentas militares realmente porque ajudam a descolar o militar da realidade, já que é mais fácil matar um ponto vermelho na tela do que um ser humano de carne e osso. Mas é usado por ser uma mídia contemporânea, da mesma maneira que um filme que mostra o inimigo como o anti-cristo ou um conto em que o inimigo é retratado como um porco também dessensibiliza. A natureza sinestésica e imersiva do videogame assusta aos mais velhos, que não dominam essa tecnologia e podem parecer cavaleiros do apocalípse mas são somente ferramentas, são somente novas mídias. Seria o mesmo que culpar Albert Einstein pela bomba atômica.
Todos esses criminosos eram de alguma maneira desajustados sociais, sejam na família, na escola, no trabalho. Sofriam de abuso e violência em vários níveis. O problema não era o videogame. As pessoas que culpam o videogame pela violência em 2009, culpariam o cinema na década de 1970 e o jazz na década de 1930. O aumento desta violência não é decorrente do videogame, mas de vários fatores como o mais óbvio que é o aumento demográfico: mais pessoas, mais crimes. Os problemas de desigualdade também não foram resolvidos e são catalisadores desta violência. Podemos ficar aqui por várias laudas listando as raízes dessa violência. Escolher o videogame como bode expiatório é escolher um réu sem advogado.
Devemos prestar atenção ao que nossos filhos fazem e à sua relação com o mundo, sua sociabilização é importante e deve ser sadia para que ele cresça e se desenvolva de maneira plena, o videogame pode contribuir para sua alienação e para comportamentos estranhos, mas o problema é outro, o videogame neste caso deve ser encarado como sintoma e não como doença.
E uma mensagem à CBN, que ouço regularmente: quando se quer falar de comportamento, se chama um especialista em comportamento, psicologia ou antropologia, não um professor de ciência da computação, que por mais boa fé que tenha, pode ter um viés, como foi o caso. Isto só contribui para o preconceito que já existe.
March 12th, 2009 | Category: Uncategorized | Leave a comment